quinta-feira, 14 de abril de 2011

Leitura livre (II)




"Os anormais" (Michel Foucault)


Aula de 12 de fevereiro de 1975

Fiquei com um medo que talvez seja meio obsessivo: tive a impressão, uns dias atrás - lembrando-me do que lhes disse da última vez a propósito da mulher de Sélestat, sabem, a que tinha matado a filha, cortado e comido a perna dela com repolho -, de lhes ter dito que ela havia sido condenada. Lembram-se? Não? Eu disse que ela tinha sido absolvida? Também não? Não disse nada? Pelo menos, disse alguma coisa a seu respeito? Bem, se eu tivesse dito que ela tinha sido condenada, teria sido um erro: ela foi absolvida. 

(...)


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"Asinaria" (Plauto)


Ato 2
Cena 4

(...)

Leonida
(...) Você insulta outras pessoas e não admite ser insultado? Sou um homem tanto quanto você é.

Vendedor de asnos
Certamente, é dessa forma.

Leonida
Acompanhe-me, então. Com sua permissão afirmo: nenhuma pessoa sequer acusou-me justamente de infâmia, nem há hoje em Atenas pessoa mais confiável que eu.

Vendedor de asnos
Talvez: mas ainda assim, hoje não será possível convencer-me a confiar este dinheiro a você, pois não o conheço. Um homem é um lobo para outro [lupus est homo homini], não um homem, quando um não conhece o caráter do outro.

(...)


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"Os anormais" (Michel Foucault) - continuação


(...)

Eu achei que tinha lhes dito (o que teria sido um erro) que ela havia sido condenada por ser um período de fome e porque ela era miserável; nessa medida, ela tinha interesse em comer a filha, porque não tinha mais nada para pôr na boca. Esse argumento foi de fato empregado e quase influiu na decisão, mas ela acabou sendo absolvida. E foi absolvida em função do seguinte fato, que foi sustentado pelos advogados: que ainda havia mantimentos no seu armário e que, por conseguinte, ela não tinha tanto interesse assim em comer a filha; que ela teria podido comer toucinho antes de comer a filha, que o sistema de interesses não agia. Em todo caso, a partir disso, ela foi "absolvida". Se cometi um erro, desculpem-me. A verdade ficou estabelecida, ou restabelecida.


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"Além do bem e do mal" (Friedrich Nietzsche)


Quinta parte - aforismos e intermédios

83:
O instinto - Quando a casa arde, esquece-se até o almoço. Sim; mas logo se aproveitam as cinzas.