terça-feira, 17 de maio de 2011

Leitura livre (III)

Stéphane MALLARMÉ
première parution : 12 mai 1866
De l’éternel azur la sereine ironie 
Accable, belle indolemment comme les fleurs, 
Le poëte impuissant qui maudit son génie. 
À travers un désert stérile de Douleur

Fuyant, les yeux fermés, je le sens qui regarde 
Avec l’intensité d’un remords atterrant, 
Mon âme vide. Où fuir ? Et quelle nuit hagarde 
Jeter, lambeaux, jeter sur ce mépris navrant ?

Brouillards, montez ! versez vos cendres monotones 
Avec de longs haillons de brume dans les cieux 
Que noiera le marais livide des automnes 
Et bâtissez un grand plafond silencieux !

Et toi, sors des étangs léthéens et ramasse 
En t’en venant la vase et les pâles roseaux, 
Cher Ennui, pour boucher d’une main jamais lasse 
Les grands trous bleus que font méchamment les oiseaux.

Encor ! que sans répit les tristes cheminées 
Fument, et que de suie une errante prison 
Éteigne dans l’horreur de ses noires traînées 
Le soleil se mourant jaunâtre à l’horizon !

― Le Ciel est mort. ― Vers toi, j’accours ! Donne, ô matière, 
L’oubli de l’Idéal cruel et du Péché 
À ce martyr qui vient partager la litière 
Où le bétail heureux des hommes est couché,

Car j’y veux, puisque enfin ma cervelle, vidée 
Comme le pot de fard gisant au pied d’un mur, 
N’a plus l’art d’attifer la sanglotante idée, 
Lugubrement bâiller vers un trépas obscur...

En vain ! l’Azur triomphe, et je l’entends qui chante 
Dans les cloches. Mon âme, il se fait voix pour plus 
Nous faire peur avec sa victoire méchante, 
Et du métal vivant sort en bleus angelus !

Il roule par la brume, ancien et traverse 
Ta native agonie ainsi qu’un glaive sûr ; 
Où fuir dans la révolte inutile et perverse ? 
Je suis hanté. L’Azur ! l’Azur ! l’Azur ! l’Azur !


____________________



Stéphane MALLARMÉ
première parution : 12 mai 1866


Brise marine
La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres. 
Fuir ! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont ivres 
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux ! 
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux 
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe 
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe 
Sur le vide papier que la blancheur défend 
Et ni la jeune femme allaitant son enfant. 
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture, 
Lève l’ancre pour une exotique nature ! 
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs, 
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs ! 
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages 
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages 
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots... 
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots !


____________________

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Leitura livre (II)




"Os anormais" (Michel Foucault)


Aula de 12 de fevereiro de 1975

Fiquei com um medo que talvez seja meio obsessivo: tive a impressão, uns dias atrás - lembrando-me do que lhes disse da última vez a propósito da mulher de Sélestat, sabem, a que tinha matado a filha, cortado e comido a perna dela com repolho -, de lhes ter dito que ela havia sido condenada. Lembram-se? Não? Eu disse que ela tinha sido absolvida? Também não? Não disse nada? Pelo menos, disse alguma coisa a seu respeito? Bem, se eu tivesse dito que ela tinha sido condenada, teria sido um erro: ela foi absolvida. 

(...)


____________________



"Asinaria" (Plauto)


Ato 2
Cena 4

(...)

Leonida
(...) Você insulta outras pessoas e não admite ser insultado? Sou um homem tanto quanto você é.

Vendedor de asnos
Certamente, é dessa forma.

Leonida
Acompanhe-me, então. Com sua permissão afirmo: nenhuma pessoa sequer acusou-me justamente de infâmia, nem há hoje em Atenas pessoa mais confiável que eu.

Vendedor de asnos
Talvez: mas ainda assim, hoje não será possível convencer-me a confiar este dinheiro a você, pois não o conheço. Um homem é um lobo para outro [lupus est homo homini], não um homem, quando um não conhece o caráter do outro.

(...)


____________________



"Os anormais" (Michel Foucault) - continuação


(...)

Eu achei que tinha lhes dito (o que teria sido um erro) que ela havia sido condenada por ser um período de fome e porque ela era miserável; nessa medida, ela tinha interesse em comer a filha, porque não tinha mais nada para pôr na boca. Esse argumento foi de fato empregado e quase influiu na decisão, mas ela acabou sendo absolvida. E foi absolvida em função do seguinte fato, que foi sustentado pelos advogados: que ainda havia mantimentos no seu armário e que, por conseguinte, ela não tinha tanto interesse assim em comer a filha; que ela teria podido comer toucinho antes de comer a filha, que o sistema de interesses não agia. Em todo caso, a partir disso, ela foi "absolvida". Se cometi um erro, desculpem-me. A verdade ficou estabelecida, ou restabelecida.


____________________


"Além do bem e do mal" (Friedrich Nietzsche)


Quinta parte - aforismos e intermédios

83:
O instinto - Quando a casa arde, esquece-se até o almoço. Sim; mas logo se aproveitam as cinzas.



quarta-feira, 23 de março de 2011

Leitura livre (I)



"Ad Helviam matrem de consolatione" (Sêneca)


V - (...)

A desventura é grave para aquêles a quem chega inesperadamente; fàcilmente a suporta quem sempre a espera. Assim, também o ataque de um exército inimigo dispersa os soldados tomados de surprêsa; mas se preparados para a guerra antes da guerra, ordenados e prontos repelem a primeira investida, que é a mais furiosa.

____________________


孫子兵法 (孫武)


Mestre Sun

Nos tempos antigos, os guerreiros hábeis antes tornavam-se invencíveis e só depois buscavam a vulnerabilidade do inimigo.

Zhang Yu

Tornar-te invencível significa conhecer a ti mesmo, perceber a vulnerabilidade do inimigo significa conhecer os outros.

Mei Yaochen

Esconde tua forma, mantém a ordem interna e fica atento a possíveis lacunas e descuidos do inimigo.

Mestre Sun

A invencibilidade está em ti mesmo, a vulnerabilidade está no adversário.

Du Mu

Mantendo o teu próprio exército em ordem, sempre preparado para o confronto, elimina teus vestígios e esconde tua forma, tornando-te inescrutável ao adversário. Quando percebes que podes tirar proveito do oponente, entra em ação.


____________________


易經

5. HSU / A ESPERA (NUTRIÇÃO)

(...)

JULGAMENTO

A ESPERA.
Se você é sincero, tem a luz e o sucesso.
A perseverança traz boa fortuna.
É favorável atravessar a grande água.

(...)

Alguém se encontra diante de um perigo que deve ser superado. Fraqueza e impaciência nada conseguirão. Só o forte pode enfrentar seu destino, pois, graças à sua segurança interior, ele é capaz de resistir.

(...)

IMAGEM

Nuvens se elevam no céu: a imagem da ESPERA.
Assim o homem superior come e bebe,
permanece alegre e de bom humor.

Quando as nuvens se elevam nos céus, é sinal de chuva. Não há nada a fazer senão esperar que a chuva caia. O mesmo ocorre na vida quando o destino articula seus movimentos. Não se deve ceder a preocupações nem procurar moldar o destino com intervenções prematuras. Ao contrário, deve-se com tranqüilidade, fortificar o corpo, comendo e bebendo, e o espírito, através da alegria e do bom humor. O destino virá no seu tempo devido e então se estará preparado.

____________________


"Ad Helviam matrem de consolatione" (Sêneca) - continuação


(...) Nunca me entreguei à sorte, mesmo quando parecia que estivesse em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cercava (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde pudesse retomá-los, sem me aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e êles: tirou-me os favores, portanto, não mos arrancou. A sorte contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela prosperidade. Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais temos perpétua propriedade e que por êles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vã e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas, quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudam. Contra um e outro estado tem uma alma invicta, cheia de firmeza já experimentada, porque experimentou na boa sorte o que é útil contra a infelicidade.


sábado, 19 de março de 2011

Fragmentos das "Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo" de Arthur Schopenhauer (trad. de Wolfgang Leo Maar).

§150
O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós: e isto é possível a cada um. Mas o que resulta disto em relação ao todo?
Parecemos carneiros a brincar sobre a relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que infelicidade justamente agora o destino nos prepara -, doença, perseguição, empobrecimento, mutilação, cegueira, loucura, morte etc.
A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas, entreatos, uma vez aqui e ali. E de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua, porém não somente metafórica, com a necessidade ou o tédio; mas também realmente com outros. Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta, e morre de armas em punho.

§151
Também contribui para o tormento de nossa existência, e não pouco, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar fôlego, perseguindo todos qual algoz de açoite. Somente não o faz com aquele que se entregou ao tédio.

§152
Mas, assim como nosso corpo explodiria, se lhes fosse subtraída a pressão da atmosfera, assim também se a pressão da necessidade, dificuldade, contrariedade e frustração das pretensões fossem afastadas da vida dos homens, sua petulância cresceria, se bem que não até estourar, contudo até as manifestações desenfreadas da loucura, mesmo do delírio. Inclusive cada um necessita sempre de um certo quantum de preocupação, ou dor, ou necessidade, como o navio de lastro para navegar de modo ereto e firme.
Trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo? Que se transfira o homem a um país utópico, em que tudo crescesse sem ser plantado, as pombas revoassem já assadas, e cada um encontrasse logo e sem dificuldade sua bem-amada. Ali em parte os homens morrerão de tédio ou se enforcarão, em parte promoverão guerras, massacres e assassinatos, para assim se proporcionar mais sofrimento do que o posto pela natureza. Portanto, para uma tal espécie, como a humana, nenhum outro palco se presta, nenhuma outra existência.

§156
(...)
Ninguém é mui invejável, mui deploráveis são muitos.
A vida constitui uma tarefa a ser realizada: neste sentido defunctuns é uma bela expressão.
Imaginemos que o ato da procriação não fosse uma necessidade, nem acompanhado de prezer, mas um assunto de pura reflexão racional: a humanidade então ainda subsistiria? Não possuiria, pelo contrário, cada um compaixão suficiente para com a geração vindoura, a ponto de lhe poupar o fardo da existência, ou ao menos não lhe impor o mesmo a sangue-frio?
Pois o mundo constitui o inferno, e os homens formam em parte os atormentados, e noutra, os demônicos.
(...)
De fato, a convicção de que o mundo, e portanto também o homem, é algo que propriamente não deveria ser, é adequada a nos prover de tolerância uns em relação aos outros: pois o que há de se esperar de seres sob tais predicamentos? E mesmo partindo deste ponto de vista, poder-se-ia pensar que o tratamento apropriado entre os homens, em lugar de MonsieurSir etc., deveria ser "companheiro de infortúnio, soci malorumcompagnon de misèresmy fellow-sufferer". Por mais estranho que possa parecer, corresponde à coisa, lança sobre o outro a luz apropriada e recorda o necessário, a tolerância, paciência, piedade, amor ao próximo, indispensável a todos, e portanto de que todos são devedores.

§156 a
(...)
Pardon is the word to all (Cymbeline a. 5, sc. 5). Com qualquer estupidez, falha, vício humano, deveríamos ser tolerantes, pensando que o que temos diante de nós é somente nossa própria estupidez, falha, vício: pois trata-se dos erros da humanidade, a que também nós pertencemos, possuindo em conseqüência também todas as falhas, mesmo aquelas sobre que nos indignamos, apenas porque justamente agora não se manifestam em nós, pois não se encontram à superfície, mas repousam ao fundo, e se apresentarão ao primeiro motivo, precisamente como agora os observamos no outro; apesar de em um se ressaltar um certo tipo, em outro, um distinto, ou de não se poder negar que a medida total de todas as propriedades más em um é bem maior do que em outro. Pois a diferença das individualidades é inavaliavelmente grande.

____________________


Eu tinha preparado algo antes disso tudo, mas resolvi apagar. Mas o trecho que retirei dos escritos filosóficos de Schopenhauer faz parte da idéia original.

O meu gosto por escrever crônicas e textos parecidos está acabando. Penso em, a partir de agora, apenas postar traduções e trechos de obras. Nada de primeira pessoa daqui pra frente. Vamos ver no que dá.

terça-feira, 1 de março de 2011

To the old times... (V)







endure,
do what you're supposed to






terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

To the old times... (IV)







forgive and forget






sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

To the old times... (III)







together we stand,
divided we fall






quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

To the old times... (II)







even the greatest fortune starts with a single coin






sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

To the old times... (I)







never give up







quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011




Vercingetórix larga suas armas aos pés de Júlio César (1899), Lionel-Noël Royer



"Was sich nie und nirgends hat begeben,
Das allein veraltet nie".

Ou como fora traduzido por Wolfgang Leo Maar em O mundo como vontade e como representação (parte III): "O que nunca e em lugar algum aconteceu,/Somente isto jamais envelhece". No §51 dessa grande obra Schopenhauer cita Schiller, buscando ilustrar a relação entre o ofício do historiador e do poeta.

Ora, certos detalhes da História perderam-se para sempre nos rumores populares. Como saber exatamente o que aconteceu com Vercingetórix quando entrou sozinho no campo de Júlio César para anunciar sua rendição? A poesia preenche estas lacunas com o que é esteticamente agradável. Assim, enquanto o historiador parece ser um escravo dos fatos e dados empíricos, costurando os retalhos da tapeçaria do tempo, o poeta reconstrói a História, como se desse voz aos grandes heróis e tiranos.

A poesia não é uma fonte da juventude, mas traz consigo mais sobre a felicidade e a "imortalidade" do que se imagina.

Sublime.