segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soneto XXXV

CESSA DE TE AFLIGIR com teus erros diversos:
A fonte tem seu limo e a rosa seus espinhos;
A nuvem, o eclipse obumbram lua e sol;
No mais tenro botão o verme horrível jaz.
Todo homem é pecador e também eu o sou,
Buscando dar razão a todos teus pecados,
A mim causando mal, se amenizo os teus erros,
Desculpas de alto honor buscando a teus pecados.
Introduzo o bom senso em teu senso perdido
(Em teu próprio adversário encontras advogado)
E a mim mesmo então um processo eu intento;
Meu ódio e meu amor travam guerra civil:
   Esse amável ladrão ajudar quero, cúmplice,
   Ladrão que amargamente o coração me rouba.



William Shakespeare


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Dizem por aí que Shakespeare buscou a inspiração para montar o padrão do soneto inglês nas obras de Luíz Vaz de Camões. Certamente, o grande mestre inglês sofreu de "ferida que dói, e não se sente", mas não tenho como atestar se tal influência de fato se deu. Deve haver quem diga: "Shakespeare? Admirado com uma língua tão rude e incivilizada quanto a nossa? Absurdo".

Talvez seja mesmo um absurdo. Porém, nada é perfeito - principalmente no que diz respeito à linguagem. A língua portuguesa, se comparada à sua raiz latina, carece gravemente de rigor lógico. E tal rigor parece ter se destacado através das eras em idiomas como o Alemão e o Grego mais que no idioma lusitano.

As línguas alemã e grega detêm uma grande variedade de declinações nominais que enriquecem o discurso de seus falantes com novos significados e sutilezas poéticas. Entretanto, isto pode se tornar um pesadelo para os epistemólogos e filósofos analíticos. De qualquer forma, não pretendo discutir epistemologia agora. Pretendia, na verdade, louvar nossa língua e afirmar que não duvidaria se voltassem a me contar que Shakespeare inspirou-se em Camões. Talvez ele tenha se maravilhado com a riqueza verbal da língua dos Lusíadas - algo tão brilhante e singular quanto qualquer grande obra em idioma dito "civilizado".

Oremos aos mestres Petrarca, Dante, Cervantes e ao mui grande Luíz Vaz de Camões.

No vernáculo está a identidade do povo!


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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.



Luíz Vaz de Camões