quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Por que me admirar, quando eu me vir, um belo dia, colhido pelos perigos que jamais cessaram de me rodear?"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Soneto XXXV

CESSA DE TE AFLIGIR com teus erros diversos:
A fonte tem seu limo e a rosa seus espinhos;
A nuvem, o eclipse obumbram lua e sol;
No mais tenro botão o verme horrível jaz.
Todo homem é pecador e também eu o sou,
Buscando dar razão a todos teus pecados,
A mim causando mal, se amenizo os teus erros,
Desculpas de alto honor buscando a teus pecados.
Introduzo o bom senso em teu senso perdido
(Em teu próprio adversário encontras advogado)
E a mim mesmo então um processo eu intento;
Meu ódio e meu amor travam guerra civil:
   Esse amável ladrão ajudar quero, cúmplice,
   Ladrão que amargamente o coração me rouba.



William Shakespeare


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Dizem por aí que Shakespeare buscou a inspiração para montar o padrão do soneto inglês nas obras de Luíz Vaz de Camões. Certamente, o grande mestre inglês sofreu de "ferida que dói, e não se sente", mas não tenho como atestar se tal influência de fato se deu. Deve haver quem diga: "Shakespeare? Admirado com uma língua tão rude e incivilizada quanto a nossa? Absurdo".

Talvez seja mesmo um absurdo. Porém, nada é perfeito - principalmente no que diz respeito à linguagem. A língua portuguesa, se comparada à sua raiz latina, carece gravemente de rigor lógico. E tal rigor parece ter se destacado através das eras em idiomas como o Alemão e o Grego mais que no idioma lusitano.

As línguas alemã e grega detêm uma grande variedade de declinações nominais que enriquecem o discurso de seus falantes com novos significados e sutilezas poéticas. Entretanto, isto pode se tornar um pesadelo para os epistemólogos e filósofos analíticos. De qualquer forma, não pretendo discutir epistemologia agora. Pretendia, na verdade, louvar nossa língua e afirmar que não duvidaria se voltassem a me contar que Shakespeare inspirou-se em Camões. Talvez ele tenha se maravilhado com a riqueza verbal da língua dos Lusíadas - algo tão brilhante e singular quanto qualquer grande obra em idioma dito "civilizado".

Oremos aos mestres Petrarca, Dante, Cervantes e ao mui grande Luíz Vaz de Camões.

No vernáculo está a identidade do povo!


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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.



Luíz Vaz de Camões

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pela ação revela-se a intenção

1 O individualista procura os próprios caprichos,
irrita-se contra todo conselho.
2 Ao insensato não agrada o discernimento,
mas publicar o que há em seu coração.
3 Onde entra impiedade, entra desonra,
e com a desonra, a vergonha.
4 As palavras de um homem são águas profundas,
a fonte da sabedoria é um regato corrente.
5 Não é bom ser parcial com o culpado
para oprimir o justo no tribunal.
6 Os lábios do insensato entram na rixa,
e sua boca provoca pancadas.
7 A boca do insensato é uma ruína,
e seus lábios uma armadilha para si mesmo.
8 As palavras da maledicência são guloseimas
que penetram até as entranhas.
9 Quem é negligente no trabalho
é irmão de quem destrói.
10 O nome do Senhor é uma torre fortificada,
nela se recolhe o justo e é defendido.
11 A fortuna é para o rico sua praça forte,
em seu pensar, é uma alta muralha.
12 O coração soberbo precede a queda,
a humildade precede a glória.
13 A quem responde antes de ouvir
tocam-lhe estultícia e vergonha.
14 O espírito do homem o sustenta na doença,
mas quem levanta um espírito abatido?
15 Um coração sensato adquire ciência,
e o ouvido dos sábios busca o saber.
16 A dádiva abre o caminho ao homem
e dá-lhe acesso junto aos grandes.
17 O primeiro a defender-se tem razão,
até chegar um outro que o impugne.
18 A sorte lançada põe fim às disputas
e decide entre os poderosos.
19 Um irmão ofendido é mais do que uma praça forte,
as disputas são como os ferrolhos de um castelo.
20 Do fruto da boca sacia-se o ventre de um homem,
farta-se do produto de seus lábios.
21 A morte e a vida estão em poder da língua:
o que alguém preferir, será o fruto que vai comer.
22 Quem encontra uma esposa encontra um bem,
e encontra um favor do Senhor.
23 O pobre fala suplicando,
porém o rico responde com dureza.
24 Há companheiros que se maltratam entre si,
mas há amigo mais fiel do que um irmão.


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Pr 18: 1-24. A circunspecção é um adorno do sábio.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Simplicidade (ou mantendo o coração do povo em descanso)

(versão inglesa traduzida por Sérgio Barroso)






道德經:


不尚賢,使民不爭;不貴難得之貨,使民不為盜;不見可欲,使心不亂。是以聖人之治,虛其心,實其腹,弱其志,強其骨。常使民無知無欲。使夫1知者不敢為也。為無為,則無不治。






Capítulo Três - Simplicidade




Não exaltar os proficientes
faz as pessoas não competirem entre si.
Não superestimar
bens difíceis de se obter
faz o povo não roubar.
Não poder ver
as coisas desejáveis
faz o coração das pessoas
não se confundir.


Desta forma:
os sábios governam
esvaziando seu desejo,
preenchendo apenas suas necessidades,
enfraquecendo suas ambições,
fortalecendo seus ossos.


Mantenha as pessoas constantemente
sem desejo de forma que não percebam.
Elas farão com que as pessoas ávidas
não se atrevam a interferir.
Aja sem interferir -
assim nada será desfeito.






    Não glorificar os habilidosos previne a discórdia oriunda da competição. Não superestimar os bens raros salva o povo do roubo. Não exibir as coisas boas ou gabar-se delas não confunde os corações das pessoas.
    Assim, os sábios governam de forma a aplacar seus desejos e satisfazer apenas suas necessidades, enfraquecer sua ambição e fortalecer seu centro.
    De forma consistente e imperceptível, eles deixam o povo feliz e evitam que os maliciosos se atrevam a interferir. Agir sem interferir não desfaz o que está feito.



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Dao De Jing [Tao Te Ching] de Laozi [Lao Tsé]. Traduções de Chinese Text Project e Hilmar Alquiros. Disponível em: http://chinese.dsturgeon.net/text.pl?node=11591&if=en e http://www.tao-te-king.org/

Pensamentos de Dogen Zenji sobre o Budismo e a mortalidade.

(Traduzido do inglês por Sérgio Barroso)
(Revisado em 11.02.11)



Questão 10. O seguinte já foi dito:

"Não te lamentes pela mortalidade;¹ há uma escapatória, que é perceber a natureza eterna do espírito. Assim como o corpo nasceu, ele morrerá, mas não o espírito. Percebe que o espírito imortal existe dentro de ti, e que aí está tua natureza essencial, sendo o corpo apenas uma morada temporária, efêmera, morrendo aqui, renascido lá. A mente continua imutável através do passado, presente e futuro. Compreender isto é libertar-se da mortalidade. Aqueles que o fazem dão fim à vida e morte do passado e, quando desprendem-se de sua forma mortal, entram no oceano da natureza. Assim que o fazem, certamente são imbuídos com as mesmas virtudes sagradas dos anjos. Aqueles que ainda não aprenderam este princípio estão condenados a repetir sua experiência de mortalidade para sempre."

Isto só pode significar que o que realmente importa é perceber [admitir] que todos nós temos uma alma imortal. O que se ganha ao gastar tempo sentado em uma almofada? Esta linha de pensamento concorda com o caminho dos budas e dos patriarcas?



Resposta 10. De forma nenhuma. Essa é a heresia de Senika.² A heresia afirma que dentro de nossos corpos há uma espécie de inteligência fantasma,³ que sabe diferenciar o bom do ruim, o certo do errado. A habilidade de sentir dor e prazer, sofrimento e contentamento se deveria a esta inteligência fantasma. E mais, tal natureza fantasmagórica poderia escapar de um corpo morto e renascer em outro. Quando achamos que o corpo está morrendo, o espírito consegue renascer em outro lugar e subsiste por toda a eternidade.

É isso que a heresia diz.

Acreditar em tal tolice e chamá-la de buddhadharma [Dharma Budista] é mais insensato do que catar pedras e acreditar que são joias. É tão estúpido que não posso fazer outra analogia. Echu,⁴ o mestre que educou um imperador da Dinastia Tang, criticava veementemente essa falácia. Quão ignorante é - elevar ao nível da sutil verdade de Buda a crença de que o espírito permanece e o corpo perece. Você está promovendo a causa primeira da mesma mortalidade de que tenta escapar. É digno de pena. Saiba que isso é pura heresia e não lhe dê atenção.

Permita-me observar que para se enxergar através dessa heresia você precisa saber que ensinamos que no Dharma Budista corpo e mente estão unidos intrinsecamente, sua natureza e seu aspecto indivisíveis - é um princípio inabalável em toda a China e Índia. Se uma religião prega que as coisas são permanentes, então tudo é permanente, tornando impossível separar-se corpo e mente. Se uma religião prega que as coisas são evanescentes, então tudo é evanescente, tornando impossível separar natureza e aspecto.⁵ Em qualquer caso não pode ser verdade que o corpo pereça enquanto o espírito sobrevive. Que fique claro também que a mortalidade é nirvana. O nirvana nunca foi discutido fora do contexto da mortalidade. Pense a respeito: sua mente - que tenta alcançar uma suposta sabedoria budista mas despreza a mortalidade, que espera que uma alma imortal se desprenda do seu corpo - ainda é uma mente dotada de compreensão e percepção que é, ela mesma, objeto da mortalidade, violando assim o preceito da eternidade. Quem pode negar isto?

Observe atentamente, e você verá que as religiões verdadeiras sempre ensinaram que o corpo e a alma estão unificados. Então, por que razão a alma deveria destacar-se do corpo e sobreviver enquanto o corpo morre? Isto implicaria que corpo e alma estão unidos algumas vezes, mas não todas as vezes, tornando todas essas religiões grandes farsas. Aqueles que pensam que a ideia é eliminar a mortalidade são culpados de odiar o Budismo. Devemos ter cuidado com tais afirmações.

Você deveria conhecer a escola de pensamento budista chamada Aspecto Universal da Natureza da Mente,⁶ que prega que por todo o reino do dharma, em toda a sua vastidão, é impossível separar natureza e aspecto ou distinguir vida e morte. Nada, nem mesmo a compreensão e o nirvana, está fora da natureza da mente. Todas as coisas e fenômenos compartilham essa mente, nada está excluído, nada está desconectado. Há muitas escolas de pensamento budistas, mas todas defendem que a mente é uniformemente singular. Os ensinamentos budistas são conhecidos por sua insistência em afirmar que distinções de mente não existem.

Tentar ainda assim distinguir corpo e mente, ou separar a vida do nirvana, é impossível. Todos nascemos como filhos de Buda, e não devemos dar ouvidos àquilo que filósofos não-budistas dizem.


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¹ seishi, lit. "vida-morte". Tem uma variedade de nuances dependendo do contexto, mas o foco neste caso é sobre nascimento e morte.
² Senika é um filósofo indiano que viveu na mesma época de Gautama.
³ rei-chi
Nanyo Echu
o tradutor original acredita que Dogen pretendia afirmar que pregar permanência é tão limitador e contraditório quanto pregar evanescência.
"portal do dharma do vasto total aspecto da essência da mente" 心性大総相の法門, citação de Daijo Kishin Ron 大乗起心論 (Despertar da fé de Mahayana).


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First Dogen book: selected essays from Dogen Zenji's Shobogenzo. Organizado e traduzido para inglês por Bob Myers. Distribuído sob a licença Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 3.0 United States. Disponível em: http://www.bob.myers.name/dogen/

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Três doenças




Caso 88: As "três doenças" de Gensha
(traduzido do inglês e reformatado por Sérgio Barroso)


Gensha, instruindo a assembléia, disse:
"Todos os antigos mestres disseram, 'Ajudem os seres vivos e os salvem'. Suponha que você esteja diante de três pessoas com doenças diferentes, como você as ajudaria? A pessoa cega não pode ver, mesmo que você erga um martelo [para julgá-la] ou se esforce para que ela veja. A pessoa surda não pode escutar, mesmo que você recite frases belas. A pessoa muda não pode falar, mesmo que você peça para que ela fale. Como você as ajudaria? Se você não puder ajudá-las, o Dharma Budista não tem eficácia verdadeira."

Um monge perguntou a Unmon sobre isso.

Unmon disse, "Faça uma reverência". O monge fez uma reverência e levantou-se. Unmon cutucou-o com seu cajado. O monge recuou. Unmon disse, "Então, você não é cego".

Depois ele disse, "Venha até aqui". O monge se aproximou dele. Unmon disse, "Então, você não é surdo".

Então ele disse, "Você compreendeu?". O monge disse, "Não". Unmon disse, "Então, você não é mudo".

Com isso, o monge obteve a compreensão.


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Hekiganroku - The Blue Cliff Record. Disponível em: http://perso.ens-lyon.fr/eric.boix/Koan/Hekiganroku/index.html